Por [Beatriz Somo]
A gente gosta de acreditar que vive em tempos livres, onde cada um pode ser quem quiser, vestir o que quiser, seguir a profissão que ama e falar o que pensa. Mas basta olhar de perto para perceber que essa liberdade ainda tem um preço alto — e, na maioria das vezes, é cobrado com silêncio.
Na moda, por exemplo, existe um lado que raramente chega às vitrines. Entre costuras, backstage e identidades que desafiam padrões, ainda há quem precise justificar sua presença apenas por ser quem é — pela cor, pela raça, pela origem, pela forma como ama. A indústria que vende “liberdade de expressão” no lookbook muitas vezes falha em defendê-la fora das fotos.

No mercado de trabalho, o cenário não é muito diferente. Profissões criativas seguem sendo tratadas como “hobby remunerado”, sem o mesmo respeito destinado a carreiras tradicionais como Direito ou Medicina. Como se impacto social, relevância cultural e contribuição coletiva não fossem métricas válidas de valor. Como se só fosse digno aquilo que enche a conta bancária.
A música também sofre cortes — e não apenas de edição. Capas de álbuns trocadas, letras modificadas, artistas pressionados a diluir suas mensagens para se tornarem palatáveis. O que é isso, senão censura com um filtro mais elegante?

O mais perverso desse mecanismo é que ele não grita — ele sussurra. O julgamento vem em comentários disfarçados de “opinião sincera”, em olhares rápidos, em ironias leves o suficiente para que pareçam inocentes. É o tipo de violência que não deixa hematomas, mas mina a confiança, até que a própria pessoa se convença de que é mais seguro ficar calada.
Só que opinião não é arma para ferir, é ponte para entender. Respeito não é prêmio para quem pensa igual, mas compromisso com quem pensa diferente. E se existe um desconforto em ouvir, talvez seja justamente aí que mora a necessidade de escutar.
O silêncio imposto não é paz — é controle. E nenhum sonho floresce onde a terra é censurada. A história mostra que quem incomoda, muda. E quem muda, constrói. A questão é: até quando vamos deixar que o medo dite o tom da nossa voz?

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